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Por quê?


“POR QUE NINGUÉM QUESTIONA A OBTURAÇÃO DO DENTISTA E O PROJETO DO ENGENHEIRO, MAS QUESTIONA MEU PROJETO DE DESIGN?”

Há 14 anos quando iniciei na área do design e da publicidade, sempre que falava com as pessoas o que eu fazia, ou queria “fazer quando crescer”, elas sempre diziam: “ah... você vai trabalhar com computador, né? Eu tenho um parente que faz isso também.” Não havia distinção entre os tipos de coisas que se faziam em um computador, logo, falar que trabalharia com design era algo desconhecido, sem muita importância, para a maioria das pessoas. Hoje não é tão diferente ainda, mas já melhorou bastante.

Navegando pela internet achei diversos posts dentro de páginas sobre design com a seguinte menção: “Ninguém questiona a obturação do dentista e o projeto do engenheiro”. Como venho realizando um trabalho de pesquisa há anos, refleti sobre esta citação e liguei ao caso de quando eu estava começando 14 anos atrás.

A máxima de “o designer não é valorizado nem respeitado” não deixa de ser verdade, mas a culpa é de quem?

Bom... antes de refletir sobre isso, vamos tentar entender o por quê de ninguém questionar a obturação do dentista e o projeto do engenheiro. Antes de tudo, devemos grande parte disso ao fator cultural. No Brasil (no mundo todo, na verdade) há uma cultura de exaltação a pessoas de certas profissões, sem nenhuma justificativa plausível, apenas porque foi empregado isso na sociedade. Com o passar dos anos, isso tem se diluído bastante, principalmente com a era digital, mas ainda é realidade. Então, quando falamos de certas profissões, há um conceito absoluto de respeito (o que é o certo para qualquer profissão). Outro fator que torna o trabalho deles inquestionável é o fato de ser um trabalho onde, para ser executado, é preciso passar por uma série de provas, preparo, testes, a fim de que possa executar tanto a obturação quanto o projeto daquele prédio de 20 andares seguro como a mão de Deus. E por último, mas não menos importante, tanto a profissão de dentista quando engenheiro possuem rituais, códigos de ética, postura, que ajudam a valorizar e a tornar a profissão tão respeitada. Esses códigos são mais sérios e importantes do que você pensa! Junte isso ao fato de serem profissões milenares, e terá, de fato, profissões extremamente conceituadas e indubitavelmente respeitadas.

Mas vamos entender melhor, então... 

Diferente do dentista e do engenheiro, a profissão de designer é relativamente nova, portanto, ainda pouco conhecida e valorizada, não possuindo um valor social muito grande, ainda que comercialmente seja básico.

Diferente do dentista e do engenheiro, não precisa de nada para ser designer, basta se autodenominar assim! Quando digo nada, quero dizer NADA, ZERO, BULHUFAS NENHUMA, NECAS DE PITIBIRIBA. Se você tem 12 ou 50 anos e de repente decide ser um designer, você pode! Basta ver um tutorial ou outro no youtube. Não precisa aprender, se quer, psicologia de cores! Você será um designer e ainda terá o direito de fazer posts falando que os sobrinhos zoneiam o mercado e que você é extremamente prejudicado com isso. Eu sei... dá um bug na mente, mas nem tente refletir, senão você fica maluco!

Diferente do dentista e do engenheiro, mesmo que você não seja um micreiro, mas sim alguém com curso superior e um diploma daqueles bonitinhos dentro de uma moldura, não há um código de ética muito sólido e fiel. Para que vocês entendam melhor: 
Você não vê dentista e engenheiro desrespeitando possíveis clientes em grupos de design;
Você não vê dentista e engenheiro desrespeitando colegas de profissão que estão iniciando;
Você não vê dentista e engenheiro compartilhando posts ridicularizando clientes e/ou o relacionamento com eles;
Você não vê dentista e engenheiro compartilhando posts que fomentam a desvalorização da profissão;
Você não vê dentista e engenheiro compartilhando posts que transparecem a falta de entendimento e briefing de um profissional em uma negociação;
Você não vê dentista e engenheiro compartilhando posts que colocam outras profissões acima das deles; 

E talvez uma ação isolada não muda o conceito popular do nicho, mas junte tudo diariamente, com milhares de profissionais em todo o Brasil, e você terá motivos claros ou subliminares para a depreciação. 

Tudo isso com o pretexto da CRIATIVIDADE!

E para finalizar, outro fator importante: a MENSURABILIDADE!
Sabemos que um design ruim pode atrapalhar o ponto de partida de qualquer campanha ou mesmo atuação no mercado, mas não existem fatores numéricos para deixar isso explícito. Se uma obturação der errado, você sentirá dor e verá seu dente se lascando. Se o projeto do engenheiro der errado, além de vidas estarem em jogo, milhares (ou até milhões) em dinheiro poderão ser perdidos e qualquer um verá isso. Já no design, se der errado, não terá como atribuir ao mau design este fracasso, ainda que seja eminente, até a contestação torna-se quase impossível.

Junte todos esses fatores anteriores, e veremos o por quê de ninguém questionar a obturação do dentista, o projeto do arquiteto, mas questionar seu projeto de design. 

O processo para tornar o design mais valorizado é longo, minucioso e coletivo. É preciso agregar muito valor em cada tipo de ação e postura de mercado, estudando mínimos detalhes e adotando a gentileza, paciência e, claro, a esperança (não pode morrer). Não adianta agir como desvalorizado e cobrar valor de terceiros. Não adianta se achar desvalorizado, mas se sentir superior ao colega de profissão porque você possui um Apple. Não adianta estudar ferramentas e esperar que o sucesso venha por osmose. É preciso união de todos, respeito no meio, e consciência da realidade. Só assim mostraremos ao mundo a importância da criatividade em todo negócio, de pequeno ao grande.

A união será nossa força!





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